O orelhão era um aparelho extremamente útil, pois quem não podia pagar alguns mil reais, quero dizer, cruzeiros ou cruzados novos na compra de uma "linha telefônica", muito necessitava dele. Naquela época ele tinha uma entrada que encaixava perfeitamente essa ficha que fazia um barulhinho, indescritível aqui, que sinalizava a aceitação da ficha e isso nos deixava "ligadamente felizes". Era um bom sinal.
Esse exemplo caiu por aqui, não como a ficha caia, nem como nostalgia de um passado recente e muito menos como a melhor forma de se pensar no futuro, já que esse mesmo exemplo estará perdidamente obsoleto muito em breve. Essa simples volta nas nossas lembranças baseada na utilidade que já teve o orelhão em nossas vidas, vem como um apontador de que as tecnologias vêm nos auxiliando, transformando a vida de todos nós, dando a oportunidade de evoluirmos ao mesmo passo que ela, talvez. Mas até quando iremos alcançá-la? Quantos passos por dia teremos que caminhar para que não fiquemos muito atrás dela? Quantos nomes estrangeiros teremos que aprender antes mesmo de sabermos pronunciar uma frase completa em outro idioma?
Agora mesmo estou digitando esse texto no meu processador de texto 2011, que logo estará guardado e será lembrando com uma versão antiga de um novo e incomparável processador de texto que muito rápido também ficará velho e será trocado. Vale lembrar que ainda não consegui usar 50% das funções básicas que esse ótimo pacote 2011 me oferece. É importante destacar também que digito essa reflexão em um equipamento móvel chamado notebook que funciona perfeitamente sem que nenhum cabo ou fio esteja conectado a ele. Fibra óptica invisível?
Se tivermos tempo para pensar, chegaremos a conclusão que na verdade não somos nós que não conseguimos acompanhar a euforia disso que deveríamos chamar de tecneologia¹, visto sua necessidade de apresentar o que é novo, diferente e transformador. Talvez não sejamos nós os lentos, os que caminham devagar. Ela, a tecnologia, é que corre demais. Onde será que vai chegar? A pressa é tanta que não se contenta com 1, tem que ser 2.0.
Sendo nesses passos largos que a tecnologia caminha, a invasão dela nas nossas vidas é inevitável. Não é mais tão suficiente ser uma pessoa ligada, antenada. Agora é preciso estar plugada, conectada e virtualizada. Viramos seres binários, digitalizados, isso para não falar, pelo menos por enquanto, da internet, essa gigante dona do presente e do futuro da comunicação mundial, essa invenção que para muitos é comparado ao oxigênio. Sem ela não é possível sobreviver.
TV a gente comprava e vinha numa caixa que dificilmente dava para trazer de um jeito fácil para casa. O tamanho era medido por 14 polegadas e parecia quadrada, agora é 16 x 9 e já não é escolhida pela cor, antes preta, já foi cinza, hoje é "piano" e, finalmente, conseguimos pegá-la com uma mão só. A tela é em LCD ou plasma e a imagem high definition - e só é legal se for assim. O áudio do home theater tem que causar um efeitosurround. E os livros, então? A gente não precisa mais ir a uma biblioteca para comprá-los, a gente não precisa mais folhear, a gente agora faz flip. Hoje a gente faz download direto para o e-book que virou tablet que está virando um netbook muito menor, leve e mais prático.
Falar já não é mais tão importante, existe o SMS, a não ser que seja no celular. Ah não, desculpe! Celular é coisa do passado, quis dizer smartphone, um objeto que também está ficando para trás, mas por enquanto - e ainda - suas funcionalidades se comparam ao de um computador e falar através dele é o que menos importa. Smartphone que se preza tem que trazer uma boa câmera filmadora e fotográfica, com um bom número de mega pixels, tem que ter um memory card com tamanho giga. Precisa ter também - e essa é a parte mais importante - um belo pacote de dados que facilite a conexão com a internet, que traga um eficiente GPS. E para ser bom mesmo, tem que funcionar com touch screen, mesmo que de vez em quando trave, e nem importa mesmo se ele faz e recebe ligações, mas ter espaço para no mínimo 2 chips é fundamental. Tecnologia é assim: ou a gente se esforça para alcançar ou fica sem entender a vida.
¹ Do neologismo: o que é novo.
Por Leide Franco, estudante de comunicação social na UFRN
